3 vezes em que a Problematização foi longe demais

Antes de tudo, preciso admitir: já problematizei. E muito. A última vez que meu espírito SJW aflorou foi quando anunciaram que a atriz Scarlett Johansson foi escalada para ser a major Motoko Kusanagi, a protagonista da versão cinematográfica do mangá Ghost in the Shell. Postei sobre o assunto - não foi textão -, mas deixei claro ser sacanagem escalar uma atriz branca para interpretar uma personagem japonesa.

Ou melhor, supostamente japonesa. Em entrevista recente na IGN Brasil, o diretor da consagrada versão animada de 1995 do mangá, Mamoru Oshii, disse que "A idade e passado dela [Motoko] são desconhecidos, assim como sua nacionalidade. No Japão, os personagens do mangá e anime são 'desnacionalizados'". Se a intenção de Oshii era colocar panos quentes ou não, fica a dúvida. Para mim, entretanto, o assunto deu por encerrado.

Em alguns momentos, questionar é saudável: pode quebrar paradigmas, gerar novas discussões pertinentes e inclusive solucionar problemas. Mas, convenhamos, tem coisas que não precisam ser indagadas e, de maneira mais aprofundada, problematizadas. É daquele jeito, e ponto. Dito isso, confira abaixo alguns casos que a problematização passou longe. Não que eu também seja um baluarte do bom senso, mas há limites, não é? As ideias podem até parecer convincentes, igual discurso prolixo de político, mas há real necessidade de gastar caracteres e principalmente tempo para discutir sobre coisas tão triviais, que não vão mudar o mundo? Afinal, como bem disse Sócrates: "Só sei que nada sei, e o fato de saber isso, me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa".

 1- Sou pai exemplar e você está criando seus filhos da maneira errada



Comecemos com os tipos mais básicos de problematização. Primeiro, certamente você assistiu ao vídeo da BBC News em que o professor Robert Kelly tenta comentar sobre o impeachment da presidente da Coréia do Sul e é interrompido pela família; primeiro pelos filhos e depois pela esposa, desesperada para tirar as crianças do quarto em que o comentarista estava falando pelo computador, ao vivo.

A maioria entende a mensagem do post e faz piada, ri e compartilha com os amigos. No entanto, surge o famigerado politizador paladino dos bons costumes, que acha que tem direito de criticar como criar os filhos dos outros, esquecendo que nem todo mundo reagiria da mesma forma.


Me pergunto se ele conseguiria se portar da maneira "adequada" estando ao vivo para o país todo. Eu ficaria nervoso na hora, com certeza. É preciso ponderar, afinal. Mas o defensor da moral ainda acha que foi feio:


Kelly foi calmo. Ele pode até ter empurrado a filha, mas ele não alterou a voz e tentou continuar a conversa. Quando o outro filho e a mãe apareceram, ele respirou fundo e deu para perceber que estava esboçando um sorriso com todo o ocorrido. O público concordou, já que o vídeo ficou viral por causa da graça da situação.

É fácil falar dos outros depois do ocorrido. Que atire a primeira pedra quem nunca cometeu um erro e ficou pensando o que poderia ser feito para evitar o que aconteceu.

2- Facebook é meu palanque para despejar a revolta que sinto pelo país


Além do paladino dos bons costumes, tem outra praga tão tóxica quanto aos comentaristas de esquerda ou direita das reportagens do G1: o revoltado, que faz questão de mostrar seu discurso em qualquer postagem nas redes sociais. Inclusive do post acima, do professor Kelly. Neste caso, é tanta coisa acontecendo junto, que só lendo para entender - ou não.



Não vou comentar sobre os erros de digitação porque corro risco de me acusarem de discriminação linguística. Enfim...lá a coisa é séria e funciona, mas de qualquer forma os filhos e a mulher interromperam a entrevista. Isso quer dizer que o impeachment da presidente da Coréia do Sul não é importante? E uma notícia só é importante quando imprevistos não acontecem?

Pronto, agora estou problematizando a problematização. Melhor ir para o próximo tópico.

3- Agora classe, repitam: o correto é san-du-í-che, e NÃO lanche


Imaginem um professor de português tradicional falando a frase acima. Sabe aquela pessoa que faz questão de corrigir todo mundo, no melhor estilo Ted Mosby? Contemple outro tipo de problematizador: o estudioso de araque.

A notícia da Exame em si é bem trivial: o McDonald's do Canadá vai começar a vender separadamente os molhos de seus lanches, a saber: McFish, McChicken e o famoso molho especial do Big Mac.

"Ok, legal. Quem sabe vem para o Brasil", são os principais comentários, geralmente com marcações de amigos. Há aqueles que discutem o preço que cobrariam aqui, a qualidade duvidosa dos lanches, a mesma moralidade de sempre. É aí que o estudioso de araque surge:


Uau, alguém dá o prêmio Jabuti, Joinha e do Soletrando para este gênio. Essa explicação precisa ser emoldurada e exposta no novo Museu da Língua Portuguesa, quando reabrirem. É a descoberta mais importante do nosso idioma, superando inclusive a reforma ortográfica. Começaremos a contar os anos antes e depois do lanc- digo, do sanduíche.

A maioria das muitas respostas são para tirar sarro do pobre propagador de conteúdo inútil.  Eis que ele tenta reforçar sua argumentação, da maneira mais simplória possível: dando-se ao trabalho de procurar a etimologia da palavra lanche. Num dicionário ou enciclopédia? Não, apenas copiou e colou uma citação do WIKIPÉDIA (!!!).

Ele não entendeu que Wikipédia ainda não é fonte confiável nem para TCC?

Meu caro, apenas vá estudar o que é metonímia, depois pense no que escreveu. Eu que agradeço pela sua postagem. Não precisei assistir a vídeos de catioros cachorros para melhorar meu humor.

E vocês, ficaram revoltados com algum questionamento desnecessário? Acha que fui muito ranzinza? Conhece outros casos de problematização que foram longe demais? Caso saiba, compartilhe! Estou querendo fazer uma série de posts com essa temática. Material não vai faltar.

Até a próxima!

Comentários

Joao Guilherme disse…
A moda da problematização já está vendendo mais que sexo. Esta tão fundo na nossa sociedade que é difícil separar o que vale a pena ser discutido ou não.

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