Memórias de um nihonjin de poucas palavras (II)

Desde a chegada ao Brasil, Ditian foi dos livros ao arado. Foi obrigado a aprender português, quase passou fome e fez amizades de curta duração.

Ditian comentou sobre sua breve experiência no kendô, quando conheceu outro amigo, Tanetani Sabura. Entretanto, ele não o encontrou mais, antes da Segunda Guerra Mundial. Com esse fato histórico, a entrevista pegou um rumo diferente.

(...)

- Não conseguia igualar ao Tanetani. E ele desapareceu, antes de começar a Segunda Guerra Mundial...

- Puxa, e o ditian sofreu muito preconceito naquela época, aqui no Brasil?

- Não só eu... – ele sibilou, tristonho. Consegui; achei outro enfoque pra entrevista.

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- O comércio da cidade dependia muito dos fregueses japoneses que vinham de fazenda, sítio...E eles sempre vinham pedir em japonês. Daí o governo proibiu de falar japonês no país e... – ditian se limitou a apontar o polegar para baixo. Entendi imediatamente o que quis dizer. Logo em seguida, bateu as mãos nas pernas, em sinal de conformação.

- Meu pai – ele continuou a relatar – tinha um hotel na época e, por causa da Guerra... – e fez, chateado, o sinal de negativo de novo.

Dos livros para as enxadas. Dois anos pregando os olhos nas gramáticas de português e de nihongô (japonês) não bastaram para que ditian escapasse do trabalho braçal. Ele e a família acabaram indo parar numa plantação de algodão e bicho de seda, em Marília.

Teria escapado do preconceito dos brasileiros? Infelizmente não. Havia ainda a rejeição entre os próprios japoneses na fazenda, divididos entre os Kachigumi (achavam que o Japão havia ganho a guerra) e os Makegumi (achavam que os japoneses haviam sido derrotados).

O pior era não poder saber a verdade. Era preciso ser clandestino para saber da situação da própria pátria:

- Não podia ter câmera e principalmente rádio. E era muito difícil. Não tinha jeito. O Matsutami-san, que tinha uma farmácia em Vila Rosália, tinha um amigo que emprestou um terreno para cavar um buraco e de lá, ouvir notícias escondido, de um rádio feito na base de uma bateria de carro.

Não fosse tamanha façanha para poder ouvir notícias do outro lado do mundo, ditian estaria completamente fora de sintonia com o que estava havendo durante a Segunda Guerra Mundial. Mas a situação no Brasil também não podia ser ignorada. Enquanto todos dormiam na plantação, ele acordou para “fazer as necessidades. Era só abrir a porta e fazer em qualquer lugar”. Foi quando ele viu um incêndio num acampamento próximo.

- Era uma barraca cheia de bichos-da-seda. Daí começou os boatos de que foram os Makegumi que começaram o incêndio porque eram contra a continuidade da guerra, e os bichos-da-seda eram responsáveis pela fabricação dos pára-quedas usados nos conflitos.

- O ditian era a favor ou contra a guerra?

- Não sei se era a favor, mas sei que o bicho-da-seda não era responsável só pelos pára-quedas, eles serviam também para vestidos, camisas...

O que houve a seguir? Caos. Foi criado o Senenkai, uma associação de jovens que faziam rondas com cavalos para vigiar o terreno e fiscalizar qualquer sinal de vandalismo, e investigar quem começou o incêndio. Não deu certo.

- Acharam uma pessoa morta. Foi um assassinato... Era culpa dos japoneses? - questionou ele, sem saber a resposta.

A dúvida semeada pela tragédia fez ditian se desiludir com aquele trabalho no cultivo. “Não via futuro naquilo lá”, ele categorizou, sem pingo de dúvida. Sem outra solução, a família toda foi morar na capital.

Já chegando em São Paulo, sacrifícios foram necessários.

- O dinheiro é curto, mas fazer documento é obrigatório. Não tive escolha. Fiquei sem comer para fazer a carteira de identidade.

- Nossa, tempos difíceis hein?

- E não era só isso. Naquele tempo era assim: cinema e refeitórios, era tudo de paletó e gravata. Só no bondinho que não. Bondinho era pra ralé!

“Então, sou da ralé”, pensei comigo mesmo. Olha a situação do ônibus... Preciso voltar a dirigir.

Toda a família estava unida. Além dos pais, os seis irmãos (três casais) estavam juntos. E, como era o primogênito, era evidente que o pai gostaria que ele o substituísse. Rigoroso, ele não dava muita liberdade.

- Ele sempre me pressionou para que fosse o sucessor da família, ele achava que eu precisava fazer algo para melhorar a vida de todos. – ele disse, abaixando os olhos. Aquele movimento... Parecia estar lamentando por não ter feito o que pôde. Vamos em frente, ele parecia meio constrangido de continuar aquele tópico.

- Mas então – comecei, abordando outro lado daquele cenário –, o ditian resolveu estudar, entrar numa faculdade pra conseguir um emprego melhor?

- Acho que não adiantava o estrangeiro estudar que não ganhava diploma, eu não gostava de escola não, porque não dependia agora do diploma. Quando trabalhei nos supermercados Pão de Açúcar e Jumbo, e no Cine Foto, não precisava do diploma, então... O negócio era prático. Não exigia diploma não... – ele gaguejou. Com tantas vezes repetindo “diploma”, pude reparar que sua posição na conversa estava desconfortável. Não posso mais deixá-lo na defensiva. Melhor mudar de assunto.


- FIM DA SEGUNDA PARTE -

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