Memórias de um nihonjin de poucas palavras (III-Final)

Mesmo tendo dificuldades, ditian conseguiu se estabelecer na cidade. Sem saber que rumo tomar para suceder o pai, descobriu seu principal hobby. E é através dessa paixão que se descobre como uma das ramificações da família Kawasaki fincou raízes no Brasil, surgindo parte das gerações nissei (segunda geração, meu pai) e sansei (terceira geração, eu e meu irmão).

Com tantas vezes repetindo “diploma”, pude reparar que sua posição na conversa estava desconfortável. Não posso mais deixá-lo na defensiva. Melhor mudar de assunto.

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- Mesmo não tendo estudado, ainda assim o ditian tinha bastante conhecimento em fotografia né? – foi um tiro no escuro...

- Ah sim! – então ele abriu um largo sorriso e levantou a cabeça, orgulhoso. Fomos dar uma volta ao passado. – Lembro quando comprei minha primeira câmera com bateria de Baquerite em Marília. Na frente de casa tinha um estúdio fotográfico e ia com um amigo lá pra fazer a revelação. A partir daí fiquei muito interessado em tirar foto. Ah, espera aí! – ele exclamou animado, levantando-se da cadeira giratória e indo pro quarto. O que será que houve?

- Olha só. Fiquei tão interessado que fiz esse caderno de colagem. Eu tava “ligado” nessas novidades e sobretudo de fotografia: filmes, acessórios, características de cada máquina fotográfica... ah, essas coisas aí não podia comprar! – ele ressaltou, apontando pra uma das máquinas na colagem.

Ele estava tão animado que o deixei disparando as lembranças. Ele nunca foi de se expressar, esteve sempre calado, assistindo à televisão ou lendo o Jornal da Tarde... Fechando os olhos pra lembrar-se, talvez, de um momento especial, ele continuou:

- Em 1930, entrei no Cine Foto, e lá tem muita gente que trabalhava no ramo, e tinha mais conhecimento, especialmente em tipos de câmera. É por isso que não tenho estudo. Em prática de tirar foto, eu conhecia bastante! – ele desabafou. Parecia que ele queria falar logo essa última frase, pra mostrar que não era ignorante. – Eu também lia bastante revista, eu tava renovando conhecimento – ele completou. Entendi, ditian. Desculpe se pensei algo errado.

- Ah, e lembra do meu amigo Shinzo, que conheci no navio? – ele disse. – Pois é, ele também gostava de tirar fotos. Ele pediu pra eu tirar uma foto dele mesmo, mas com a câmera dele. Uma pena que ele faleceu. Naquela época ninguém sabia o motivo, mas depois se suspeitou que fosse câncer.

- Ah, que pena.

- Depois do enterro, o irmão de Shinzo foi ao túmulo e tirou uma foto da lápide com a câmera dele. Ao revelar as fotos, ele tomou um susto!

- Por quê?!

- O irmão não sabia que tinha uma foto dele no filme. Na hora da revelação, houve uma foto de sobreposição, do Shinzo com o da lápide! Ele achou que era um fantasma! – e ditian soltou mais uma gargalhada, imaginando a situação do irmão de Shinzo.

- Será que não era mensagem do além? – impliquei.

- Que nada! Nem fiquei com medo, mas fiquei com saudades dele.

Contente, nem se deixou levar pela falta do amigo, então voltou a falar sobre fotografia, e me mostrou algumas fotos que estavam no caderno de colagens. Todas elas são em preto-e-branco e feito novas, mesmo que dentro de um caderno amarrotado, com folhas já entoadas feito pergaminho.

- Olha essa aqui, por exemplo. Só tinha menina na família! A Rumi, a Sumi, essa eu acho que é a Hiroko... Não, é essa aqui... Essa daqui, ela faleceu. – Ele apertava os olhos pra perceber os diferenciais de cada prima minha que citava. – Ó o seu pai aqui, o mais velho de todos na foto!

- Puxa, ele era o mais velho? Como ditian descobriu que ele nasceu?

- Pois é, foi depois que eu e sua avó nos casamos por miyai (casamento arranjado). Não me senti pressionado não, é que eu tava ficando pra tia. – ele deu mais uma gargalhada. Ele nunca demonstrou, mas tenho certeza que ele ama minha batian, Yumiko. – Mas então, estava trabalhando no Jumbo e uns colegas ficaram me provocando. “Olha o papai novo, olha o papai fresquinho!” Alguém recebeu um recado e nem me avisaram. Fui correndo pro hospital.

- E como escolheram o nome dele? – perguntei.

- “Nelson” fui eu que escolhi, já o nome do meio, “Yugi”, foi meu pai.

Perguntei se sabia o significado dos nomes; ele não sabia, infelizmente. Já sabia que “Kawasaki” quer dizer “Margem do Rio”. Seria legal se...

- Bom, pelo menos, “Ichiro” sei o que quer dizer. “Ichi” é número um, e “Rô”, homem. Como sou o primogênito da família, faz todo o sentido ter esse nome.

- Puxa, que legal! – Já fui logo fazendo minhas anotações. – E aposto que o ditian ficou muito feliz quando ele nasceu né?

- É, mas é como minha turma falava: quando seu neto nasce, você fica mais empolgado do que quando o filho nasce. Todos falam assim. Seu pai não teve essa experiência, mas ele vai vivê-la.

- Ahn... Isso é alguma indireta pra mim e pro meu irmão? – suspeitei. Senti alguma pressão naquelas últimas palavras.

- Não, não! – ele soltou mais uma gargalhada debochada. E no meio dessa vergonha, esqueci de incluir minha mãe nessa história toda! Como foi conhecer a mulher que ficaria o resto da vida com o fruto de sua criação? Com o tom irônico da piadinha (sem graça) dos netos, ele me contou que tudo começou num domingo à tarde.

- Sabe como é né, visitar o sogro pela primeira vez... – Já entendi. – Mas foi interessante ela ter falado que meus pais costuraram o terno e o vestido de casamento dos pais dela.

Puxa, então nossas famílias já se entrelaçaram antes? Creio que, nessas idas e vindas na vida, qualquer coisa pode acontecer. Depois de meu pai nascer, foram meu irmão, e depois eu. Que será do futuro? Quem sabe?

- E ditian gostou quando meu irmão e eu nascemos? – foi a única pergunta que me saiu, nesse momento de imersão no espaço temporal.

- Pela quantidade de fotografias que vocês têm por aí, não preciso dizer nada! – ele frisou, com sua risada típica.

Com um sorriso, encerrei a entrevista. Quem diria que, por trás daquele rosto tristonho e olhos pequenos, cansados de tanto trabalho, estaria alguém tão feliz da vida, mesmo sem se expressar, em um momento sequer. Arigatô, ditian! Anata wa Ai Shitte-iru (Eu te amo). É uma honra ser seu neto.


xxx FIM xxx

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