Parte 3 da saga do Ninja..sorry!

Faz um tempo que não posto nenhum capítulo da série do Ninja, então, sem mais delongas, confiram o terceiro capítulo. O texto é longo, mas vale a pena!

Capítulo 3 – Acerto de contas

- Já basta, Okazuro. O que importa é que você quebrou o trato, e isso não é tolerável! – diz Shuryon firme, guardando sua espada. Só se escuta uma risada irônica do genro, cabisbaixo. Uma última gota de sangue sai de sua boca. – Não vejo nenhum bom motivo pra você rir neste momento... – diz o velho, estranhando a reação.

- Pois eu lhe explico, meu caro sogro...pra mim, esse trato não passa de balela! – diz o jovem ninja, olhando desafiador pra ele.

- Como é?

- Isso mesmo. Não precisa se fazer de desentendido! Eu sei muito bem que o senhor me odeia, desde que comecei a namorar essa daí. – ele diz isso apontando para Onihime, como se ela fosse uma peça deformada de museu. – Deixe de cordialidades, é pura perda de tempo. Além disso, há tempos que venho te visitando. Não tava na cara quem esse vulto era? Essas habilidades são dignas do único filho, do último remanescente do clã dos Sombras de Raposas, Nobuo Shinrai! Como que o senhor, que é o último descendente do clã de ninjas do campo, os Taigawa, não percebeu que essas habilidades furtivas eram nossas durante esse tempo todo? Tá perdendo a capacidade de percepção é?! – isso pareceu um desabafo de Okazuro, que viu que estava em sérios problemas, encurralado na última casa do vilarejo.

Shuryon demorou um pouco para digerir tanta informação. Sem mudar a pose, apenas disse: – Mas eu faço o que posso pelo bem de minha filha, e para isso, aturei você por tanto tempo.

- Ah, me poupe dessa baboseira de pai e filha! – disse o genro, rindo daquilo como se fosse a piada mais engraçada que já tivesse ouvido. – O senhor não sabe mentir! Não esboça nenhum sentimento, mas todas as suas tripas estão se corroendo. E desde que me conheceu, essa aversão toda está acumulando. Agora já dá pra ver pela cara qual sua opinião formada sobre mim...afinal de contas, eu usei sua filha. Hu, hu, hu... – Shuryon engole em seco esse último insulto.

- Como assim, me usou?! – pensou Onihime, imediatamente. – Isso quer dizer que, desde o início...ele...?

- ... – Shuryon permanece mais uma vez calado. Olhando pra baixo, ele está congelado. Mais um suspiro, e ele desabafa:

- Muito bem, você acertou: estive mentindo esse tempo todo. Onihime foi ingênua ao relacionar-se com um crápula como você, mas ela não teve culpa. Ela foi criada para ser uma jovem condescendente e altruísta, pronta para ajudar o próximo. De fato, foi tão bem criada que se preocupa mais com os outros do que consigo mesma. – Shuryon cerrava cada vez mais firmes seus punhos, enquanto falava palavra por palavra. Agora ele abaixava para pegar um tecido preto no chão.

- Quanto a você, Okazuro – isso Shuryon diz apontando firme para o jovem, que escuta atentamente o que ele diz – você já diz tudo, sem falar nada. Essa máscara de ninja nunca foi capaz de ocultar seu lado perverso pra mim. Mesmo usando-a, seus olhos ainda conseguem espelhar um fascínio doentio por violência e cobiça interminável por superioridade. De você emana uma aura insólita e suja que intimida seus inimigos, e é capaz de provocar calafrios a qualquer um durante uma batalha. – Shuryon tirou um peso das costas; finalmente ele mostrou o desgosto que tanto escondia da filha. Dando uma última pausa, diz, calmamente:

- A mim, entretanto, sua aura não afeta em nada.

Okazuro não demora tanto para engolir tudo que o sogro lhe disse. Com a mesma risada enjoada de antes, ele devolve:

- Hu, hu, hu...são sábias palavras, velhote...parece-me então que finalmente tirou o mundo das suas costas não é? Acabou com as cicatrizes...mas lembre-se: isso está longe de acabar. Tais cicatrizes são muito superficiais. As mais profundas perfuram e ferem demais o seu orgulho...tanto como de ninja velho, guardião do Sabre do Tigre e do Emblema, como de patriarca do clã Taigawa. E aí, não tem mais nada pra falar? Vamos lá, sogrinho! Livre-se logo dessa consciência pesada. Chuta o balde!

Shuryon acirra seus olhos, tentando se conter. Os punhos cerrados estralam, prontos para pegar a espada. Calma, ele só está provocando, não faça nada que seja precipitado...sua filha não vai querer ver o marido estirado no chão, ensanguentado...

“Pai, fala alguma coisa!”, pensa Onihime, aflita. Por que o marido estava falando naquele tom com seu pai? Tudo bem que os dois não se gostavam, mas sempre foram educados um com o outro!

Shuryon permaneceu calado. Não conseguiu pensar em nada.

- Tudo bem, então precisa de um impulso? – indaga Okazuro. – Onihime?

- Ahn, sim? – ela responde, distraída. Nesse mesmo instante, Shuryon olha pra filha, mas mantendo-se imóvel. Ele teme que a garota se machuque.

- Sei que você é muito sensível e não suporta fortes baques, por isso eu...

- Deixe-me adivinhar, Okazuro – Onihime intervém, sem formular direito sua pergunta. – Quer dizer então, que você...você não tem enganado só a mim, mas também a minha família, durante o tempo todo?

- Enganado você? Como assim? Bom, se quiser pôr as coisas dessa maneira, é isso mesmo. Tenho enganado você e sua família, sim, não nego...desde que começamos a namorar.

A resposta foi inesperada e caiu feito um baque, tanto para Shuryon quanto para Onihime. Os dois olham pro jovem, estupefatos.

Okazuro ergue um pouco seu rosto, ficando um pouco pro lado. – Hu hu hu...e você caiu feito uma pata. Como você é tonta, Onihime...depois de tantas brigas e vindas, ainda gosta de mim, quer o meu colo...e esse bebê veio em ótima hora, porque tínhamos brigado feio. Não casei com você por ser a coisa certa, não. Isso não tem a ver comigo. Junto de você poderia pegar para mim, de uma vez por todas, os tesouros da sua querida família: o Sabre do Tigre e o Emblema do Último Tigre! Hu hu hu...uma tola, Onihime...enfim, é isso que você é. Além disso, apanha e ainda gosta, feito uma pu...

- Cale-se, Okazuro! – diz Shuryon, antes que ele completasse a frase. Agora não podia mais ser educado. – Você se aproveitou da bondade de Onihime somente para atingir fins próprios. Você é a escória, merece ser destruído, e...

- Seu maldito.

- ...o quê disse? – os dois olham para a garota, ela estava falando com uma voz fraca, com dificuldades de se expressar. – O que foi, minha filha? , pergunta Shuryon, apavorado. Seria muita emoção pra ela, para uma noite só?

- Desalmado, porco, devasso, sórdido... – a cada insulto o tom de voz aumenta. – ESCROTO! CANALHA, VOCÊ ME USOU! – agora Onihime estava em prantos, derrubando lágrimas. Não se sabia se estava triste ou furiosa.

Okazuro se espanta com a reação da mulher. Ela nunca falou com ele assim, antes. Shuryon, ainda imóvel, pensa aflito: “Filha...”

- Eu pensei que você me amava...como pude ser tão burra? – disse a garota, totalmente desesperada. O camisolão estava ensopado de lágrimas. – Mas você só queria pegar o Sabre e o Emblema? Por que simplesmente não os pediu em casamento? Você arruinou minha vida! Eu tinha tudo pra passar no vestibular e cursar medicina. Eu teria uma carreira de sucesso se não fosse sua mesquinharia! Por sua causa agora tenho que ir ao banheiro a cada cinco minutos, comer feito porca, sentir náuseas só pra levantar...e pensar que eu venho na casa do meu pai por outra causa. E mais, eu encontro você aqui?! Era só o que me faltava!

- O-outra causa? Do quê está falando? – diz Okazuro, atônito com o acerto de contas da futura ex-noiva.

- Ela veio... – começou Shuryon, tentando acalmar a situação entre os dois. Ele odiava o genro, mas queria que o casamento não chegasse ao fim, sem que os motivos fossem mostrados. – ela veio me contar que viu você...

- ...no jardim, que eu cultivava... – disse Onihime, enxugando o nariz de lágrimas. Ela fazia fôlego para continuar a briga. – ...eu vi você, Okazuro Shinrai, dormindo pelado no jardim que eu cultivava, com tanto carinho, abraçando aquela pirralha vagabunda...VOCÊ E A MIKIKO!!!

- O quê? Como ousa?! – gritou Okazuro, num misto de surpresa e revolta.

- Como ousa o quê? – Agora Onihime estava sob controle da discussão. – Pensa que eu não vi aquela imagem grotesca?? Eu me pergunto por que você pegou justo aquela vadia...por acaso ela é fácil de levar pra cama? Ah, com certeza! Mas aposto que assim que ela não saciar mais sua fome, seu nojento, vai casar com ela e jogá-la na rua! Quem sabe assim você se satisfaz com o Sabre, enfiando-o no seu...

- Sua vagabunda, começou a reagir?? VAI TER O QUE MERECE!!! – urra Okazuro, avançando com sua ninjato. – Tome isso!!

Um tilintar metálico ecoa a sala, pouco iluminada. Bem na sua frente, Onihime vê o pai a defendendo, eficazmente. Ela ainda não se recuperou do escândalo. Seu coração estava para sair pela boca.

Shuryon está a alguns palmos de Okazuro. As duas lâminas estão coladas uma na outra, como se estivessem fincadas. Ninguém quer dar o braço a torcer, a questão era de renome; as duas famílias, odiadas uma pela outra, tinham um acordo de trégua. Mas o momento vivido pelos três nesse ano marcou uma nova etapa entre os Taigawa e os Shinrai: a retomada das desavenças, mas com medidas imprevisíveis; afinal, agora não tinha mais caminho de volta. Para um clã existir, a outra devia ser dizimada.

- S-sua luta – disse Shuryon, ao mesmo tempo calmo e gaguejando – é comigo. Não se atreva a tocar na Onihime. – Okazuro olha o sogro surpreso, mas não recua, agora a batalha é pra valer.

Ambos dão um pulo para trás e começam a batalha, freneticamente. O atrito entre os metais é acirrado e não parece acabar. Cortes verticais são defendidos, cortes horizontais tentam inibir o equilíbrio um do outro, cambalhotas evitam danos maiores...em poucos segundos a sala se desintegra. O sofá coleciona mais cortes nos mais diversos ângulos. Penas voam de onde as almofadas estão, a tela da televisão é trincada e a mesinha é fatiada, feito sashimi. Somente na lareira as armas e o Emblema do Último Tigre encontram-se intactas.

Desesperada, Onihime observa a luta, sem poder fazer nada. “Pai...ele não vai aguentar por muito tempo. Okazuro é traiçoeiro, é capaz de atacar rapidamente em direções diferentes! Eu tenho que fazer alguma coisa”, pensa ela, roendo a unha do polegar. Será que o pai, habilidoso ninja do clã de tigres, pode resistir?

Okazuro é quem domina a arena improvisada. No comando, ele desfere ataques para todas as direções, combinando golpes que atinjam direções opostas. O sogro não parece em boa forma, para controlar tantos ataques simultâneos. Agora, o jovem ninja ataca com um corte vertical com força extra. Shuryon custa para defender. Ele não percebe que seu inimigo se abaixou rapidamente; a guarda estava baixada.

Um filete de sangue sai pelo ventre de Shuryon. Assustado, ele nem sentiu dor alguma, percebeu que foi atingido apenas ao olhar a poça de sangue que se formava aos seus pés. A ferida não foi tão profunda, mas para sua idade, aquilo era risco iminente de morte...

- P-pai!!!! – gritou Onihime desesperada. Okazuro coloca um sorriso no canto na boca e, sem pestanejar, chuta o rival no estômago. Este bate na parede e, ofegante, se senta e segura o ventre, numa tentativa frustrada de estancar o sangue.

Okazuro se aproxima rapidamente do velho. Sua espada está a centímetros do nariz do oponente. Chegou a hora decisiva.

- Hu hu hu...meu sogrinho não resistiu às minhas habilidades...e olha que são movimentos de principiante no treinamento dos Sombras de Raposa! Você ainda não viu nada dos nossos poderes...ah, seu velho encardido...as raposas podem ser mais fracas que os gatinhos selvagens, mas nós somos mais astutas. Encare os fatos: os caninos sempre superam os felinos, não importa o tamanho nem a força...

Onihime não se descontrola. Atenta a cada palavra de Okazuro, ela olha pela sala toda, vendo algo que possa mudar o destino daquela cena. Tomara que aquele discurso demore muito. De repente, ela olha alguma coisa escondida no canto esquerdo da lareira...aquilo seria útil, mas era preciso usá-lo no momento certo.

- A partir de hoje, o Sabre do Tigre será meu, e com o Emblema do Último Tigre, ninguém poderá deter o maior dos descendentes dos Sombras de Raposa: Okazuro Shinrai!!! – diz o jovem ninja, olhando para cima. – Se depender de mim, nunca ninguém tirará o Emblema de minha cabeça! Mas, antes, preciso cortar a cabeça de alguém... – e olha para Shuryon, ainda contendo o sangramento, em vão. Onihime está atenta, está quase na hora... – Desculpe, meu velho, mas é o começo de uma nova geração. Portanto, MORRA!!! – Okazuro vai acertar Shuryon, a lâmina vai cortar o pescoço a não ser que...

Um grito desprevenido de dor ecoa a casa. Incrédulo, Okazuro olha desesperado para sua mão direita, que acabara de derrubar a ninjato. Uma flecha, tingida de um vermelho vivo, estava fincada nela! Surpreso, Shuryon não acredita que ainda não esteja decapitado. Os dois olham em direção em que a flecha foi disparada. Triunfante, a menina chorona, de olhos e cabelos acinzentados e de camisolão branco estava pronta para atirar mais uma vez.

- Caia fora, ou atiro de novo – diz Onihime, num sussuro contido de raiva.

- Vadia, você e seu filho nunca viverão em paz. – diz Okazuro, controlando-se para não avançar nela.

- Pelo contrário, Okazuro, você é quem nunca viverá em paz – diz Onihime, possuída da mais calorosa cólera. A mira está trêmula. – Guarde o que estou dizendo: eu vou criar esse filho para te odiar, acabar com qualquer vestígio seu da face da Terra! Se você fizer algo, ele o destruirá; tudo que você construir, ele demolirá sem pensar duas vezes. E, se você for infeliz de trazer mais vidas ao mundo, ele as eliminará sem a menor misericórdia!!! – ela grita, impiedosa. O tom de voz é diferente do que sempre mostrou.

Uma força acomete seu ventre. Poderiam ser forças ocultas, querendo corromper o rebento, ou então são meras contrações. De qualquer forma, o arco caiu no chão, inutilizado. Shuryon grita pela filha, que se contorce de dor no chão. O velho sente uma aura medonha na casa: algo está errado.

Okazuro nunca teve tanto medo, ainda mais de sua esposa. Aquelas palavras feriram mais do que qualquer golpe que tenha sofrido em batalhas anteriores. Sem saber o que fazer, resta a ele sair de lá, antes que ela lhe fizesse alguma coisa. – Vou-me embora, mas saiba que ainda voltarei para acabar com essa história! – grita ele, antes de se envolver em fumaça e desaparecer.

As forças interiores cessaram, e Onihime respira aliviada. Ela levanta com dificuldade, para ver o pai, desnorteado, ainda no chão.

- Pai! Está tudo bem? – grita ela, apavorada. Envolvendo-o em seus braços, Onihime percebe que o ferimento parou de sangrar. A poça, entretanto, era considerável.

- Filha, querida...você me surpreendeu. Ainda lembra de seu treinamento ninja, depois de dez anos sem usar um arco e flecha? – responde o pai, sentado.

- Pois é...ainda me recordo para situações de emergência. Mas, você está bem?

- Onihime...estou muito orgulhoso com o que fez hoje. Devo dizer que, antes que seja tarde demais, que...

- Ui! – geme Onihime, embaraçada. – Ahn, pai...a bolsa estourou, he he he... – Agora a poça de sangue estava menos tingida, misturando-se ao líquido amniótico.

- O...o que disse?? – soluçou Shuryon. – E o que estamos esperando?!! Rápido, pro hospital!!! – num instante, ele pula, pega a mala com as roupas para a filha, e recolhe o Sabre do Tigre e o Emblema. Parece que ele nem teve uma dura batalha com o genro, nem teve um grave corte no ventre. Seu neto era a prioridade. Onihime fica parada olhando tudo o que o avô faz, às pressas.

- Cuidado papai! O senhor está muito ferido – diz ela, enquanto é empurrada pelo pai. – Não está doendo?

- Que isso, minha filha! Você sabe que eu sou um velho lobo do mar...

- Bom, velho eu sei, mas... – diz Onihime, desconhecendo quem era o pai.

- Rápido, antes que...AAAAAIII!!! O corte cresceu de tamanho!!!!! – grita Shuryon, chorando de dor. – ONIHIMEEEE, me acuda!

- Eu não falei pra tomar cuidado?! – grita Onihime. Um suspiro e ela pensa, consigo mesma: “Droga, eu é que preciso de atenção, pô!”

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