Vamos lá, pra parte um...

Antes de tudo, desculpem minha ausência. Não tenho tido inspiração pra postar com tanta frequência quanto antes. Sei lá, deve ser por causa de... ah, sei lá. Mas enfim, cá estou de volta, firme e forte com os posts aqui, no Kawasakinês. E pros poucos leitores daqui também, é claro. (Beijos, me liguem. HAhahahah)

E pra relembrar minha volta, deixo mostrar aqui o primeiro capítulo do livro-que-era-pra-ser-um-mangá Tigre Sem Rumo. Lembrando que esse título é com que trabalho, não é totalmente oficial. Já tinha pensado em usar Legado Ninja, mas ia ser genérico demais. Depois que veio esse que tenho usado, não tive mais inspiração para criar outros, já que Tigre Sem Rumo tem a ver com o enredo da história.

Preciso explicar de novo, pra não confundir: dividi a história em duas fases. A primeira fala da origem do personagem, em seu contexto histórico em 1986, e a segunda retrataria o cotidiano dele, em dias mais atuais.

O primeiro capítulo serve como um prólogo da história em si, apresentando o local onde a história se desenrola - um bairro de classe baixa -, com personagens icônicos desse tipo de cenário - mulheres fofoqueiras, homens com muito amor pra dar e etc - e introduzindo os personagens principais, um ninja experiente e sua filha grávida, de forma bem superficial. É por isso que não dei nome aos dois logo de cara, já que deixaria a história linear demais. Dessa forma, eles aparecem de forma mais natural.

Quanto ao nome do protagonista... Pra dar um ar de mistério a la Beatrix Kiddo (não sabe quem é? É de um dos melhores filmes já feitos), ele só vai ser delineado lá pelo capítulo 10. Então, paciência. A partir de agora, quando for falar sobre o personagem principal, vou me referir como sendo "O Ninja". Ok?

A seguir, deixo com vocês o primeiro capítulo. Peço desculpas por qualquer passagem mal-feita ou tosca, porque tudo foi escrito ao londo de três anos, e o vocabulário pode parecer BEEEEEM datado. Por isso, peço sua ajuda: se alguma coisa estiver ruim, me avisem nos comentários. Boa leitura!

PS: *momento Velho Chato On* Não entendo por que essas PORRAS de parágrafos ficam todas zoadas quando copio e colo...ÓDIO! *momento Velho Chato Off*

Capítulo 1 – Jantar sem fome

É março de 1986, em algum subúrbio, no Japão. O fim de tarde oferece estrelas e nuvens pequenas. O céu magenta e sereno já está para dar seu lugar a um azul escuro e sufocante. A iluminação precária não ajuda os pobres transeuntes que andam a essa hora. Mal eles percebem, durante a caminhada, o chão revestido de folhas rosas, sejam secas ou recém-caídas. Finalmente as cerejeiras floresceram. Aqueles dias de nuvens escuras e ventos cortantes, constantes durante os quatro meses que se passaram, finalmente se foram e sem deixar qualquer resquício.

A nova atmosfera permite aos moradores da vizinhança saírem de suas casas, para dar continuidade às próprias vidas. Senhoras varrem suas entradas e arrastam as velhas folhas. Pais voltam do trabalho prontos para receber o carinho das respectivas famílias. Crianças combinam o horário para brincar no dia seguinte e vão embora para jantar e dormir cedo para a escola. O cotidiano voltou ao normal graças à primavera. Para comemorar essa passagem, as preparações para o Festival de Meninos e Meninas estão em andamento. Sem dúvida essa celebração vai mexer com todo o vilarejo.

Embora a primavera tenha trazido bons frutos para todos, algo do inverno continuava pairando. Afinal, os ventos cortantes não impediam – aliás, até ajudavam – que histórias privadas ganhassem dimensão e se espalhassem pela boca do povo. Dentre tantos hobbys que o bairro oferece – pesca, artesanato, esculturas em papel –, a fofoca é que corre solta pela população. Não importa a situação: seja o filho adolescente chegando bêbado e rasgando a porta da casa da dona Nohara (“esse aí não vai pro céu”) ou o senhor Hokuji convidando uma bela e curvilínea, mas suspeita para sua sala (“ele está viúvo há apenas duas semanas, pelo amor de Deus”!), nada passa reto do povo. Aliás, o que falta de crimes nesse vilarejo, tem fofocas demais em forma de uma corrente diz-que-diz...

O último babado agora girava em torno de uma casa de médio porte. Era a última, contando da esquerda para direita, a partir da entrada da única rua sem saída do bairro. Lá morava um senhor de meia idade com cabelos brancos pelas beiradas, calado e sempre rabugento (“ah, eu nunca fui com a cara dele”). Usa um kimono velho, calças largas de samurai encardidas e chinelos de bambus, com meias brancas. Um pouco corcunda, mas não tinha o físico debilitado. Pelo contrário: era saudável e mantinha um treinamento rígido. Sua vizinha conta que sempre escuta ele gritando, enquanto pratica golpes com uma espada, logo pela manhã. De noite, algumas vezes já escutou barulho de metal. Durante o resto do dia não escuta mais nada. “Vai ver é um veterano de guerra caduco que pensa estar na Era Meiji”, pensa Osaka Ichinose, a senhoria e dona do pedaço. “Ele nunca ajudou nas preparações dos nossos eventos, nunca saiu daquela casa, só sabe gritar enquanto treina com aquela espada...se ele não pagasse o aluguel regularmente, eu não pensava duas vezes em expulsá-lo daqui a chutes!”, ela diz, começando mais um conchavo na rodinha.

“E vocês viram quem veio com aquele carrão pra casa dele, logo de manhazinha?”, disse uma senhorinha que, entusiasmada com o assunto, quase tropeça de sua bengala pra ir um pouco mais pra frente. “É uma fulaninha de olhos cinzas, desesperada. E prenha!” “Nossa, será que foi aquele velho rabugento que engravidou a moça? Ela tem idade pra ser filha dele! Eu é que não ficaria grávida agora!”, disse uma outra moça, feia de doer. “Ah, mas se até o senhor Hokuji chamou aquelazinha pra casa dele, tudo pode acontecer! Aquele monstro velho...”, completou a senhora Ichinose.

A rodinha ainda mantinha as fofocas, mas agora falando da nova mancada da dona da quitanda, que aumentou os preços (“aposto que ela quer compensar os gastos com o jogo!”). Enquanto isso, aquela última casa, da esquerda pra direita, estava desolada. Apenas as luzes da sala estavam acesas. Embora havia pouca, a plantação estava até bem conservada. As paredes amarelas estavam começando a descascar e alguns pisos do chão de madeira começavam a saltar.

Duas pessoas estavam na casa, ajoelhados sobre duas almofadas verde-musgo amarrotadas. Entre eles uma mesinha, com as tigelas, copos de ban-chá e o potinho para o shoyu. A sala, não muito bem iluminada, ainda contava com uma escrivaninha com um abajur aos pedaços e um caderninho marrom aberto, com uma caneta tinteiro no meio. Um sofá bege e cheio de arranhões estava no canto oposto da sala. Do lado, uma televisão desligada e empoeirada ocupava um certo espaço. Diante do sofá, uma lareira inutilizada desde a semana passada, quando o inverno dava sinais de terminar. Acima dela, pregadas em um mural, armas dos mais diversos tipos estavam à mostra: nunchaku, kunais, punhais, bastões...um arco também se encontrava no canto esquerdo da lareira, junto de uma porta-flechas. Perto de lá estava a passagem para um corredor escuro. E, no alto da lareira, lá estava a tal espada que o velho usava com tanto entusiasmo que gritava a cada golpe que desferia. Disposta sobre um porta-espadas com um suporte parecendo um tigre laranja, sua bainha era bordô. Extremamente limpa, essa arma parecia ser uma das únicas relíquias da casa. Únicas porque atrás dela estava ainda uma testeira azul-clara, com bordas cinzas. Um desenho em sua frente lembrava o perfil de um felino em seu momento de investida. Ele brilhava parcialmente sob a luz que penumbrava a sala.

O velho rabugento e a fulaninha de olhos cinzas jantam. Olhando um para o outro, com a mesinha entre eles, as horas parecem demorar séculos. Em um extremo, o velho come seus sashimis pacificamente, sem esquecer de molhá-los no shoyu com wasabi antes, no prato raso, enfeitado com ilustrações de baiacu. Do outro, a menina, cujos cabelos cinza-esbranquiçados estão desgrenhados, fita os seus sushis, enquanto os cutuca com o hashi como se fossem bichos que pareciam estar mortos. Apoiada sobre um cotovelo na mesa, a garota está com olheiras enormes. Seu olhar também lembra tristeza, e lágrimas estão prestes a serem derramadas.

- Não vai comer nem mesmo os sushis, filha? – pergunta o homem, enquanto enxuga a tigela.

- Hã? – pergunta a menina, distraída. Ela pára de mexer na comida.

- É de kani, o seu favorito. Pode deixar o missoshiro, que eu sei que você não gosta. Mas, para seu filho ser saudável, é preciso comer ao menos alguma coisa.

- Ah, pai – ela solta os hashis e mexe os cabelos para trás, simulando cansaço. Cabisbaixa, ela desabafa: - Eu nem quero saber de comida, depois de tudo que me ocorreu hoje.

O velho põe a tigela na mesa enquanto olha pra filha, perplexo. Ciente do jeito de respondeu o pai, ela rapidamente retruca, olhando pro lado:

- Desculpa, pai, mas o senhor não entende...

- Claro que entendo, minha filha... – diz o velho, se levantando. Ele esboça um sorriso sereno e confortante, enquanto se levanta para ficar perto dela. – Iremos resolver tudo pela manhã.

- Será mesmo? – diz ela, ainda desanimada.

- Sem dúvidas! – ele diz, segurando-a pelos ombros. – Filha, você já fez o mais difícil, que é fazer sua escolha. Você veio aqui por livre arbítrio. Foi uma iniciativa sua, e isso é um grande passo para o seu futuro. O mérito é todo seu!

- Ah, pai...fiz bem mesmo?

- Mas é claro! Deixe disso, você está fazendo o certo.

- Muito obrigada, pai! – a garota finalmente esboça um sorriso e abraça o pai.

- Que isso...disponha! – ele abraça, enquanto também sorri. – Agora, vá dormir. Amanhã você toma um café da manhã farto, ouviu? Você teve uma manhã agitada, e isso também não fará bem ao meu neto! Pode ir pro seu quarto, que está do jeitinho que você deixou quando saiu.

- Certo...então boa noite pai! – diz a garota, que tasca um beijo na bochecha do pai, ruborizado. Enquanto ela vai em direção ao corredor que dá pro quarto, o velho a olha, e suspira: “Ô filha...”


Update às 10h31, dia 30 de agosto: graças à Tina, corrigi alguns erros malas do texto. Thanks!

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